“O homem religioso é sedento do ser”

In: Mircea Eliade. O Sagrado e o Profano – a essência das religiões.

sábado, 9 de maio de 2009

PRETOS - 13 DE MAIO


Ficou para sempre no quinto mês de cada ano – maio, mês de Maria (o que logo remete à Santa do Rosário, padroeira dos “Pretos”, ilustríssima Senhora da Irmandade do Rosário) – a celebração e honra aos ancestrais africanos e descendentes de africanos escravizados em terra brasilis.

Mas decerto, toda segunda feira é dia de honrar os antepassados. E também a Exu. A honra aos ancestrais é para sempre, segundo as tradições religiosas com origens africanas ou afro-ameríndias no Brasil.

Conta a lenda que, certa vez, estavam as Rainhas Yemanjá, Oxum e Iansã numa discussão sem fim para repartir entre elas alguns dez búzios. As Yabás tentaram infinitamente a repartição, sem sucesso. Cada uma defendia sua posição para ficar com quatro búzios. Foi então que Exu, assistindo a demanda, intrometeu-se. Separou três búzios para cada uma e deixou que sobrasse um. Exu cavou um pequeno buraco no chão, enterrou o búzio e o cobriu com terra. Era pros Ancestrais. A partir daí, ficou-se entendido que, tudo o que ganhamos, comemos ou temos, uma parte deve ser dada aos nossos antepassados.

É interessante perceber que todo o sistema religioso de nossas tradições voltam-se para a questão da ancestralidade. Sem os antigos não estaríamos aqui. Sem iniciados, não existirá a continuação. As almas, os Ancestres olham por nós. Aqui estão nos orientando, protegendo, repreendendo. Cada Nação rende homenagem, ao seu modo, aos Ancestrais. Percebe-se então que, sem o culto aos antecessores, ao passado, não existe o presente. E menos ainda o futuro.

Os Pretos, Velhos Antepassados, Velhos Ancestrais, Velhas Almas, Velhas e Antigas, Relíquias, Bastão de nossas famílias,  Egungun – Egun,  Velhos Tata Kimbanda: Os Exus, Caboclos donos de nossa Terra - Ancestrais primeiros dessa Terra, coexistem e formam uma espécie de “complexo ancestral” nos destinos de cada ser vivo: sua ancestralidade, sua história.

Preto Velho, o ícone popular representativo da ancestralidade africana e mestiça nos terreiros. O chamado “psicólogo dos pobres”, o vovô, a vovó, a negra que conta histórias – Tia Anastácia.

Embora a figura do Nego Véio esteja em grande oposição à figura de Exu (o primeiro é visto como o escravo submisso, convertido à fé cristã, meio regenerado segundo às concepções do colonizador e, o segundo, rebelde, quilombola, o feiticeiro e conhecedor dos venenos pra matar os senhores de terra). Não importa. No Cruzambê Divino – Os quatro cantos do mundo – as Almas vão rezar. Também ali está Exu. Não se esqueça.

No dia 13 de maio, na hora de servirmos nossos milhares grãos de feijão em nossas comunidades – os feijões: a representação da descendência sobre a terra – pensemos nos que já se foram. Cantemos a eles as nossas sinceras reverências para sermos agraciados com suas benfazejas proteções e orientações.

 

Adorei as Almas no dia de Hoje,

Mojubá!


PROVÉRBIOS MINA

- O provérbio é o cavalo da conversa: quando a conversa fica cansada, o provérbio a carrega na garupa.

- Quem está se escondendo, não acende fogo.

- Uma mentira só estraga mil verdades.

- Homem rico pode vestir roupa velha.

- Se a floresta te abriga, não a chame de selva.

- A fome tanto dá no escravo quanto no rei.

- A lua se move lentamente, mas atravessa a cidade.

- A ruína de uma nação começa nas casas do seu povo.

- Se alguém já vem vindo, por que dizer "venha cá"?

- Mesmo forte e vigoroso, nenhum velho dura muito.

- O rio de águas tranquilas, esse é o mais perigoso.



quinta-feira, 7 de maio de 2009

SORRIA, OS ORIXÁS ESTÃO AQUI

Antes de escrever estava aqui indagando o meu tão longo silêncio. Retornar. Reescrever. Postar novamente. Talvez seja porque a vida “no santé” exija mesmo grandes silêncios. Ou talvez eu não vá encontrar o real motivo para esse tanto silencioso. Talvez porque sejam muitos os motivos. Mas pergunto-me: por que antes a necessidade de escrever e agora nenhuma?
Não por falta do que falar. Ao contrário, as religiões com matrizes africanas não deixam seus filhos sem assunto. São muitos os falares. Muitos os saberes. Muitos os olhares. Mas volto eu aqui pra não ter que fazer sumir da rede algo que foi tão carregado de afeto em seu início.
O que tento pensar aqui é sobre a minha não-necessidade de voltar a escrever sobre os assuntos da nossa religião. Talvez seja porque muito se escreve por aí e muito se fala. Logo, o risco da redundância é grande. Nossa era deve ser mesmo uma era de muitas informações e pouco conhecimento, pouco aprofundamento. Como os leitores das orelhas dos livros. É então digitamos qualquer palavra para qualquer assunto no google e zasss. Lá está. E logo pensamos que sabemos tudo sobre aquilo ali. Talvez eu também tenha perdido a vontade de escrever porque são muitas as opiniões, muitas as verdades. Muitos os martelos batidos sobre mesas. Muitas as pedras atiradas, muitos os egos transbordantes. Muitas frases feitas e repetidas.
Somos uma cultura religiosa tão complexa assim? Mas antes da complexidade, riqueza e precisão da liturgia, penso mesmo é nas relações interpessoais que se estabelecem no caminho rumo à espiritualização do nosso ser.
Assim como eu, muitos perguntam: por que somos tão desunidos? Por que sempre estamos a depreciar o quintal do outro, o jeito do outro, sua opção, sua concepção de mundo, sua festa, sua comida, sua roupa, seu interesse, seu medo, sua fé (ou falta dela), sua nação... “forever in aeternum”(?). Há quem diga que talvez isso seja uma espécie de herança dos africanos, pelas guerras intertribais na própria Mãe África. Mas foi aqui que os mesmos viram-se obrigados a conviver dentro da própria senzala. Dividindo as dores e os massacres, a mesma fé, reunindo ancestrais e divindades de etnias diferentes, juntando dialetos e rezas pra um só propósito: A libertação.
Os processos de escravização, sejam quais forem, sempre são fatos consumados de extrema violência que o homem é capaz de exercer contra ele mesmo, contra a sua própria natureza. Quando digo: sejam eles quais forem, falo também sobre os abusos de poder que exercemos sobre o outro em maior ou menor grau. Estamos sempre prontos a testar as capacidades alheias, seja com o ciúme, com a inveja e com o suposto “amor” que sempre dizemos ter.
Creio que uma religião é para tornar o ser melhor. Senão a religião, a fé ao menos ou a crença “num “sagrado” ou numa força absurda da vida... enfim. Aquilo que qualquer um pode denominar por si mesmo.
Mas por que nós, com nossas tradições, com nossa liturgia, com nossos pontos em comum, com nossa riqueza de detalhes e significados, continuamos a espalhar entre nós mesmos as sementinhas da discórdia e dos ojus, das indakas, das demandas?
Talvez porque em algum lugar nos precisamos ou somos precisados uns dos outros. Sabemos disso, mas “somente se for assim e assim”. Ou então por que não assumimos de vez que não existe em nosso mundo a separação entre o bem e o mal? E que talvez essas sejam duas grandes forças que se atravessam e nos atravessam continuamente e que talvez aí esteja o ponto de equilíbrio? (Será?). Bem, eu não devia ter começado a escrever.
Mas gosto de lembrar uma coisa. O autor francês Michel Dion, ao ter escrito a biografia de Gisèle Cossard (Yá Omindarewá), observa algo bem interessante. Ele dizia que era curioso sair da França, um lugar onde as religiões não encantam mais e, após 10 horas de vôo, chegar ao Brasil para viver no mundo do candomblé. Sim. O Brasil ainda é um lugar onde as religiões encantam as pessoas. As de origem africana, sobretudo. Bem, bem.
Vamos sorrir. Os Orixás, Minkices, Bacuros, Voduns estão aqui faz tempo. E parece que daqui não arredam pé. Devem até ter aprendido a falar o português como disse sabiamente um sacerdote brasileiro. Mesmo com tantas indakas entre nós, Eles aqui ainda estão.
Sorria. Eles aqui estão porque estamos vivos.

“...as Almas choram de alegria
quando os filhos se combinam
também choram de tristeza
quando não quer combinar...
lá no Cruzeiro Divino...”

Mojubá Baba mi.
Axé!
RR.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DIA 21 DE SETEMBRO: EU FUI!




Bem, eu estava lá. Eu que nunca gostei muito de me enfiar no meio das multidões. Sempre avesso aos tumultos. Nem Ano Novo, nem show na praia. Mas fui no dia 21. Certas coisas a gente tem que ver com os olhos e sentir na pele. Tentar pensar com uma grande cabeça que é “o coletivo”.
Creio que a manifestação do dia 21 de setembro de 2008 para os religiosos dos cultos com herança africana no Brasil foi um marco, um feito importante. Não só para os adeptos das religiões de matrizes africanas, mas para a cidade do Rio de Janeiro, tão necessitada de um grito claro e obtuso de paz. Podemos afirmar que isso só acontece mesmo num país como o Brasil: o encontro de todas as religiões com um só interesse: paz e tolerância. O respeito à diversidade. Tolerância, tolerância e tolerância. Um casamento só dura _ além do amor _ com tolerância. Uma forte amizade, idem. Assim é a cidadania, creio.
Ali, na praia de Copacabana, estavam todos os líderes religiosos: judeus, candomblecistas, umbandistas, budistas, católicos, batistas, até os ciganos... Também estavam os movimentos sociais dos Negros, das Mulheres e Contra a Violência.
Mas cada qual puxa a sardinha pro seu lado. O grande destaque mesmo ficou para o povo do candomblé e da umbanda, desde que o terreiro Cruz de Oxalá, no Catete, foi quebrado por jovens fanáticos de uma igreja neo-petencostal. Foi a gota d’água. Chega de injúria. De perseguição. De intolerância. O que eles vão fazer agora? Será que vão dar alguma resposta? Vão continuar com o desrespeito?
O que parece ser interessante em tudo isso é que o povo de santo, nós, malungos, saímos de lá com a certeza de que somos mais fortes juntos. Que nos apoiamos. O que antes não acontecia. E principalmente, saímos de lá sabendo que podemos levar em frente – até o fim – quaisquer denúncias que se façam necessárias.
Em alguns “intervalos” – para comer ou procurar um banheiro - eu andava por Copacabana com minha roupa branca, com meu fio de conta, meu boné branco. Era praticamente um E.T. Talvez o “povo de Copa” tenha pensado em algum momento: “a praia foi invadida por O.V.N.I.s. e exotismo de E.T.s. que matam galinha e usam richelieu, que vivem dançando e requebrando, que usam dendê como se fosse água...”
É, meu povo do dendê... era assim que nos olhavam mesmo. Enquanto os transeuntes moradores do grande cartão postal carioca iam aos supermercados, às lavanderias, estávamos nós por lá, como se fôssemos invasores ou algo assim... Mas por outro lado, muitos se juntaram a nós.
Também era de se notar, em outros, a não afeição aos movimentos religiosos. Em outras palavras, às religiões. Como se existisse “coisas mais importantes” a serem feitas. Entendo que se possa viver sem religião. Entendo que se possa viver sem fazer parte de uma instituição religiosa e de suas burocracias e doutrinas. Entendo até que se possa viver sem nenhuma relação com o sagrado, com Deus, e com o que mais se queira. Mas não se pode negar todo o processo de desenvolvimento social que sugerem as práticas religiosas, as comunidades, etc, etc. E nós, brasileiros _ com nossos dendês fervendo nas esquinas, nossos requebrados e carnaval _ não precisamos ser tão frios e racionalistas. É possível sim o encantamento pelas religiões, longe do medo, do proibido, do mal, do sofrido, da exacerbação e do abuso de poder. É possível que os sacerdotes das religiões com heranças africanas no Brasil ensinem seus iniciados [ seus filhos ] uma melhor relação com a sua religião, com a sua fé, com o sagrado e o profano. O bom trabalho de inclusão social, de afirmação da força de cada Ori, dos Orixás na nova personalidade do filho de santo é o que de melhor pode aparecer à cidadania. É o axé. Uma boa cabeça para o mundo, para o dinheiro, para o trabalho, para a tolerância. A formação de um bom caráter. As nossas casas de santo podem fazer tudo isso.
“EU TENHO FÉ! AXÉ!”
RR.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

21 DE SETEMBRO

Está marcado pra esse domingo, 21 de setembro de 2008, às 9:00 horas, no Leme - RJ, a manifestação contra a intolerância religiosa. O movimento objetiva reunir, sobretudo, adeptos das religiões de matrizes africanas no Brasil como o Candomblé e a Umbanda.
O manifesto, ponto culminante “de um dizer basta” às perseguições e achincalhações de grande parte da sociedade religiosa neo-pentecostal, os chamados “evangélicos”, que há tempos usam de toda espécie de artifícios para barganhar mais fiéis através de ações violentas e fanáticas. Assim foi com o Centro Espírita Cruz de Oxalá, no Catete, Rio de Janeiro, assim foi com um terreiro de Candomblé Angola em Salvador, assim foi com vários terreiros residentes em comunidades cariocas. Estes últimos estavam sendo “expulsos” por traficantes convertidos à fé dessas igrejas que pregam uma verdade desesperada _ talvez seja isso o que se pode esperar de todas as verdades chamadas de “únicas” ou “absolutas”.
Não é de hoje que as religiões com heranças africanas no Brasil sofrem com as perseguições. Com um olhar mais histórico, podemos ficar horas falando da escravidão dos povos africanos, do desprezo por tudo o que vem do negro, do racismo, da desvalorização de toda essa cultura milenar. Essa mesma cultura que, lá nas úmidas e confusas senzalas, ajudou a formar grande parte da visão de mundo do povo brasileiro.
Depois da abolição da escravatura, com todo o enorme contingente de escravos libertos, o que se podia fazer para dar legítimos atestados de cidadãos aos mesmos que durante muito tempo foram tratados como animais? Como inseri-los na sociedade e da-lhes “diploma de ser humano”? E assim ia a nação Brasileira...
Depois vieram as perseguições policiais às comunidades de terreiros. E hoje, por fim, líderes e fiéis de outras religiões que mais são empresas e grandes negócios (ora, ora...).
Em toda essa grande e louca história, o que se pode dizer é que o povo de santo não é mais o mesmo. Não é mais religião de “preto, pobre e ignorante”, como diziam antigamente. Hoje é religião de todos e pra todos. Os filhos dos antigos sacerdotes estudaram, formaram-se. Artistas e intelectuais se iniciaram e puderam falar com presteza que o candomblé e a umbanda não são religiões do demônio como dizem. Até porque não existe demônio e adjacentes para o povo de santo. O mal está no outro. Em quem viu o mal. O mal está na falta de caráter, na exploração, na má-fé. E estes são partes do ser. São sentimentos que sempre vão estar como forças em luta dentro de cada um. Espera-se que desse embate, surja um novo sentimento, uma nova idéia, uma nova atitude. Uma melhora.
No mais, espero que o encontro de todo o povo de santo e mais aqueles que torcem pela paz no Rio de Janeiro, seja apenas o começo de muitas outras atitudes que não devem somente aparecer coletivamente, mas no dia a dia também. E, finalmente, espero que os candidatos não só prometam mundos e fundos nessa época imunda de campanha, mas que façam depois.
RR.

domingo, 17 de agosto de 2008

Caminhos do Mar



Rainha do mar
Yemanjá Odoiá Odoiá
Rainha do mar

O canto vinha de longe
De lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar

O corpo todo estremece
Muda cor do céu, do luar

Um dia ela ainda aparece
É a rainha do mar

Quem ouve desde menino
Aprende a acreditar
Que o vento sopra o destino
Pelos caminhos do mar

O pescador que conhece
as histórias do lugar
morre de medo e vontade
de encontrar

Yemanja Odoiá Odoiá

Letra de Dorival Caymmi

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Origami de Orixás



Blog muito interessante de uma amiga que é craque na arte japonesa de escultura em papel. Ela começou uma linda série com os Orixás.
http://dobrandocores.blogspot.com/